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18 April 2020

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História na Cabaça: escrever para guardar

Marina Rodrigues Miranda / Leonardo Pereira de Souza –  Leonardo Tupiniquim

 

“É importante a gente escrever, escrever para guardar. É um instrumento para guardar nossas histórias, nossa vida, nosso modo de vida.” – Pedro Luis Macena – Guarani de São Paulo. 

 

O nosso Tupiába conta histórias de cabaças, repassando seus conhecimentos por meio da oralidade e da escrita. Este universo de mitos, cantos e histórias inspirou o projeto. 

Em um determinado tempo espaço, projetamos o mundo indígena Guarani e Tupiniquim, povos inspiradores do projeto, como sementes que brotaram de uma grande cabaça e deram origem aos 305 povos indígenas existentes e resistentes, o que originou a diversidade linguística nativa. Afirmaram que a cabaça era gigante, que outros povos também moravam nela e que aos poucos brotaram de suas sementes. Assunta aqui, nossos ancestrais falam que ainda tem muitos povos que continuam lá,  são ainda sementes aguardando o maracá sagrado tocar para chamar a chuva para eles brotarem. 

Da cabaça do Tupiabá brotam  diversidades nativas, brotam origens. 

Afinal, qual a origem do Tupiabá? 

Tupiabá é o filho da terra.  Um guardião da história do nosso povo.

Tupiabá é um índio TUPI, que fala todas as línguas: Potiguara, Guarani, Temiminó, Bororo, Baré, Goitacaz e Tupiniquin. 

Tupiabá é a origem de cada parte das línguas faladas pelos nossos parentes.


TUPIABÁ 

TUPI= Tronco linguístico | ABÁ – Expressão linguística  de várias culturas.

 

TUPIABÁ é um grupo indígena que busca revitalizar e manter, por meio das línguas, os conhecimentos espirituais, tradicionais e conhecimentos de vida dos indígenas na terra, através da Literatura.

Professores da turma de Arte e Linguagem do PROLIND: Licenciatura intercultural indígena da Universidade Federal do Espírito Santo.

Este conhecimento originou-se de oralidade forte, escrita com pó de giz. Constatamos que as escritas de cabaças transcrevem as sabedorias míticas dos xamãs trazida dos  mundos visíveis e invisíveis. Descobrimos que a cabaça tem dois lados: a parte de dentro e a parte de fora. Então, temos histórias já contadas que são as que estão do lado de fora da cabaça e temos as histórias que ainda estão guardadas dentro da cabaça: são as sabedorias dos espíritos da floresta.

O lado de dentro também pode ser um resguardar das origens e o lado de fora o homem branco querendo derrubar a cabaça. Toda história tem dois lados…  A dos povos indígenas não tem lado. Elas têm mundo. E quem tem o mundo tem muitos lados.  

Os conhecimentos de origens, incluem diversos modos de expressão: desenhos, plumagens, pinturas corporais, extratos e essências da natureza e outras obras de cultura que remetem a sua história de ligação com a terra. Todas essas narrativas podem ser traduzidas em escritas de origens: origem de vista de mundo, modos de vida, origem do conhecimento piraqueaçu dos indígenas que inspiram este projeto, os cabeças-cabaças que se uniram lançar as sementes Tupiabá. São escritas míticas dos professores Tupiniquim e Guarani de Aracruz.

Estamos constituindo uma produção de autoria coletiva, escrevendo conhecimentos da vida, da mata, dos espíritos das florestas e das águas. O que almejamos é soprar nossas origens, soprar sementes do coité (pé de cabaça) para todos os parentes, povos de origens de outras regiões, para que possam colher nossas oralidades. Desejamos escrever uma literatura que representa  as nossas espiritualidades, acentuando alguns registros para que toda a população do planeta possa ouvir e guardar nossas riquezas. 

O povo indígena Tupiniquim e Guarani deseja escrever para outros povos indígenas e querem ler e conhecer as histórias de outros povos de origens. Querem trocar sementes. Para além de tudo, trocar saberes também com leitores não indígenas. Querem escrever a memória espiritual e colocar a sua materialidade da palavra, constituindo outras modos de escritas literárias. Escritas que pulsam e vertem suas origens. Publicar uma literatura da terra, compondo um livro vivo escrito no papel do homem branco, onde eles estão certos de que os espíritos da floresta ainda moram lá. E tendo a certeza de que estes ancestrais irão compor a almejada autoria coletiva. 

A nossa arte é escrever e publicar conhecimentos desses povos originários.

 

Bibliografia: 

ALMEIDA, Maria Inês de. Desocidenta: experiência literária em terra indígena.Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2009.

KAYAPÓ, Edson. São Paulo, Pod Cast da série Mekukradjá, Itaú Cultural. dezembro, 2019.

KOPENAWA, David. ALBERT, Bruce. A queda do Céu: palavras de um xamã Yanomami; tradução Beatriz Perrone-Moisés; prefácio de Eduardo Viveiro de Castro – 1ª ed – São Paulo; Companhia das Letras, 2015.

KRENAC, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 1ª ed. São Paulo, Companhia das Letras, 2019

MUNDURUCU, Daniel.  Comentário do Pod Cast do Ajuru Pataxó da série. Mekukradjá, Itaú Cultural. Outubro, 2019.

MUSEU DO ÍNDIO FUNAI – RJ. Catálogo de exposição fotográfica Tempo de Escrita – Espaço Muro do Museu. 2008.

 

 

Pequena Biografia – Sou Marina Rodrigues Miranda. Nasci de parteira no mês de setembro em Cariacica.  Sou fruto de duas pessoas etnicamente diferentes, um homem negro calado, silencioso e (anarquista), na verdade era comunista. Quando ele queria fazer a filharada se calar gritava: Vão parar de anarquia? Quanto a minha mãe, tenho uma convicção plena: ela é indígena. Brava, sempre disse que ia virar onça! Ela lembra que morou em Mucurutá (região de Aracruz) e conta que quando saiu de lá para morar em Nova Almeida chegou peladinha, sem uma roupa no corpo. E que a finada filha do seu ZUZU costurou roupa para ela e para as irmãs.  Ela é uma mulher de cultura oral. Sua maestria é contar histórias de visagens. Via saci e um homem branco que crescia e jogava ela no poço. Muitas histórias… Ela é uma mulher de histórias compridas e compridas. Ela é uma grande cabaça, uma mulher forte. Teve oito filhas e um filho. Todas as histórias que conta celebram conhecimentos ancestrais indígenas. Poderia provar contando uma das suas histórias, só que não posso. Contar histórias na luz do dia, nasce rabo. Quanto a mim, tenho raiz forte e alma flutuante. Eu só sei que tudo sei e nada sei das minhas origens. Sei que tenho pernas finas e ligeiras, passaram sebo nas minhas canelas. Acabei tendo origens em dois troncos distintos de duas  grandes raízes. A vida que me presenteou ser quem sou. Professora, adoro antropologia, trabalho com populações negras e indígenas. Sou mãe de dois filhos e uma filha. E minha formação é contar e colher histórias de vida. Adoro acumular raízes, elas me sustentam.  

 

Resumo do Lattes: Professora Especialista em Orientação Acadêmica em EAD pela universidade Federal do Mato Grosso (UFMT); Especialista em Educação Física Escolar pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (2007) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal da Bahia (2013). Professora Adjunto – Nível I da Universidade Federal do Sul da Bahia/UFSB; Líder do Núcleo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Experiência do Sensível na linha de Estudos e Pesquisas com Crianças, atuando principalmente nos seguintes temas de estudos e pesquisas: Educação de Infâncias, Quilombolas e Indígena;. Membro do grupo de Pesquisa Imagens e Tecnologias e Infâncias (PPGE – UFES) com o tema de pesquisa Culturas Infantis em comunidades tradicionais. Contato: marina.miranda@ufsb.edu.br  Acesso ao Lattes: CV: http://lattes.cnpq.br/4087302830515226

 

Leonardo Tupiniquim – Sou Leonardo Pereira de Souza, moro na aldeia indígena Caieiras Velha- Aracruz, liderança indígena a mais de 10 anos, idealizador do Instituto Cocar, que tem como proposta, fortalecer a identidade cultural. Participo desde 2012 do Conselho Escolar da Escola Municipal de  Ensino Fundamental Indígena de Caieiras Velha e presidente do Conselho Administrativo do Instituto Cocar.

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