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19 April 2020

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Cultura imaterial e diversidade étnico-racial da serra na formação docente: pelos caminhos do Congo e da Folia de Reis.

Nadia Juliana Rodrigues Serafim 

 

Minhas experiências como mulher negra da periferia, ativista cultural e professora de História, vieram circunvizinhando meus percursos de estudos acerca do Patrimônio Cultural na formação docente, sobretudo patrimônios de origens afro-brasileira e indígena. Na trajetória dessas vivências, consegui visualizar os distanciamentos históricos que temos do nosso patrimônio cultural, visto sempre sobre filtro do padrão, europeu e elitista cultura imaterial constituída por outros povos, foi notoriamente alijada e detratada. Essa realidade atinge em cheio o cotidiano escolar, que se vê envolto a esses “modelos culturais”,  e acaba reproduzindo uma série de exclusões sociais e culturais. Esse panorama adverso conduziu-me a uma pesquisa mestrado com incontáveis descobertas, onde procurei analisar a cultura imaterial do município da Serra, através do Congo e da Folia de Reis de Nova Almeida, junto a formação continuada de professores dos anos iniciais no município, priorizando a perspectiva da diversidade étnico-racial.

 

No precioso movimento de escuta das vozes dos sujeitos das culturas, alguns problemas ficaram evidentes, quando relataram que sofrem com os preconceitos oriundos de diversos públicos na comunidade e com o descaso do poder público, que além de não oferecer apoio financeiro efetivo, por vezes, restringe o espaço de autonomia dos sujeitos dos saberes e fazeres culturais, subvertendo-a pelas demandas políticas. Todavia, por vozes e gestos analisamos as (re)existências desses sujeitos, que mesmo com esses entraves, não abrem mão de seguir com suas produções culturais. Seja nos sorrisos, no girar das saias, nas danças ou nos toques, contemplamos essa vívida disposição ancestral. As narrativas docentes relacionadas as práticas com a cultura imaterial local no cotidiano escolar, apontaram para a escassez de trabalhos com a diversidade étnica e cultural, na formação docente, que tem como consequência, a raridade ou deturpação das práticas de ensino com a temática na escola e a desvalorização da cultura imaterial oriunda dessa diversidade. As vivências e os estudos coletivos com os professores e os produtores de culturas, deram origem a um material educativo, mais especificamente um E-book com propósito de se constituir como uma ferramenta de apoio aos estudos com a cultura imaterial na formação de professores, potencializando memórias, pertencimentos e enfrentamentos aos preconceitos.

 

Ter realizado esses estudos fora antes de qualquer coisa, uma oportunidade de compartilhamento de diversos aprendizados, fosse com sujeitos do chão da cultura, da rua com seus conhecimentos ancestrais ou com sujeitos que resguardam conhecimentos e práticas do chão da escola, em suas experiências múltiplas. A escuta sensível e as experiências coletivas com os sujeitos, ampliaram extraordinariamente os horizontes de análise, atribuindo a “entonação” humana do trabalho realizado.

 

Pequena Bibliografia:

BRANDAO, Carlos Rodrigues. A folia de reis de Mossâmedes. Ministério da Educação e Cultura, Departamento de Assuntos Culturais, Fundação Nacional de Arte-FUNARTE, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1977

______. Vocação de criar: anotações sobre a cultura e as culturas populares. Cad. Pesqui. [online]. 2009, vol.39, n.138, pp.715-746.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 25 ª ed. (1ª edição: 1970). Rio de Janeiro: Paz e Terra. GATTI, Bernadete (1997)

GOMES, Nilma Lino; SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves. O desafio da diversidade. Experiências étnico-culturais para a formação de professores. Belo Horizonte: Autêntica, p.13-33, 2002.

 

Pequena Biografia: 

Constituo-me enquanto mulher negra, moradora da periferia de Vila Velha, mãe da Talita, menina que faz meus olhos brilharem, companheira do querido Geraldo e filha de Seu Jonathan e Dona Alda, contadora de causos, figura forte e fantástica, do bairro Ataíde. Embora eu seja de Vila Velha, boa parte de minha enorme família de quinze pessoas, incluindo irmãs e mãe, foram nascidas e criadas no município da Serra, mais especificamente no bairro Nova Almeida, guardo de lá algumas memórias que marcaram minha infância, ainda ecoa em minha a mente os dizeres de minha mãe: “Bora menina, veste a roupa, que hoje vamos ver sua avó lá em Velha Almeida”, e lá íamos nós enfrentar aquelas horas em ônibus empoeirados em busca de matar saudades e tomar banho de mar. Essas lembranças se aliam ao meu desenvolvimento pessoal e profissional como docente, perfazendo um cruzamento de histórias que vem forjando a minha humanidade.

 

Resumo do Lattes:

Possuo graduação em História (licenciatura e Bacharel) pela Universidade Federal do Espírito Santo (2012). Mestrado em Ensino de Humanidades pelo Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) com orientação do Prof. Dr. Aldieris Braz A. Caprini – Título de pesquisa: “Cultura Imaterial e Diversidade Étnico-Racial na formação Docente: pelos Caminhos do Congo e da Folia de Reis”. Sou professora efetiva da prefeitura da Serra desde 2013 e atualmente colaboro na a de Educação do município da Serra, como Assessora Pedagógica nas formações para as áreas de História e Geografia e em oficinas com adolescentes no Programa Adolescente Cidadão.

 

Endereço do Lattes:

http://lattes.cnpq.br/4781678741842348

 

 

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