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19 April 2020

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Histórias que vi, vivi e ouvi

 Fernanda Camargo

Não existe  documento de cultura que não seja ao mesmo tempo um documento de barbárie. A história habitual é a comemoração das façanhas dos vencedores.(Walter Benjamin,1997)

 

A expressão benjaminiana “escovar a história a contrapelo”, isto é , reescrever a história na perspectiva dos vencidos guia as perspectivas do Projeto “Histórias que vi, vivi e ouvi” . O autor associa  a perda da voz da história ao fim da cultura,  das tradições, das experiências e por fim da capacidade de narração e de preservação. Também para Benjamin (1991) experiência (erfauhrung) tem relação com a história do sujeito e promove uma descoberta individual em um fluxo de correspondências alimentadas pela memória de tal sorte que as múltiplas vozes e os discursos carregados de memórias e histórias constituem o que nos impulsiona para a razão, permitindo-nos encontrar, no passado, memórias imagéticas a fim de enriquecer nosso presente e ressigificá-lo em uma nova experiência contável tanto por adultos quanto por crianças (Camargo, 2010).  Usamos Agamben(2008) para conceituar infância como um período criador, independente da linguagem, fala ou grunhido. Tal período constitui-se a partir das mediações com a história. História com lugar de toda palavra, guiada por situações singulares das crianças, de lugares e de suas falações. Percebemos que as marcas deixadas, principalmente pelas culturas onde elas estão inseridas têm uma representação importante não só em seu comportamento social, mas também na forma como produzem suas produções. São espaços de negociações ofertados pelo mundo adulto  constantemente afetados, mediados e transformados pelas narrativas infantis. em suas territorialidades (LOPES; VASCONCELLOS, 2005). Por mediação entendemos como todos os processos presentes nas relações sociais instituídas, nos quais várias vozes, signos e experiências aparecem presentes no discurso dos sujeitos e por memória, como essencialmente “ reconstrutiva” (DAMASIO, 1996, p.128)  ou seja, necessita ser exercitada e reelaborada.

 

Tais processos tornam-se instigantes na medida em que as conexões de memórias podem ser compartilhadas do indivíduo ao coletivo. Por isso, compreendemos o conceito de memória coletiva a partir dos estudos sobre cultura, sociedade e história dos sujeitos em diálogos com Halbwachs (2004). Muitas de nossas ideias, reflexões, afetividades e ações não nos pertencem individualmente, mas, na verdade, são inspiradas pelo e no grupo a partir de momentos de compartilhamento e comunhão. A memória individual constitui-se a partir de lembranças do próprio grupo e trata-se de um dos olhares sobre ele. Desta feita, buscamos as falações e contações de histórias vistas, vividas e ouvidas pelas crianças a partir das gerações presentes em suas comunidades . De avós e avôs para netas e netos, tias(os) para sobrinhas(os), pais para filhas(os), em um telefone sem fio de histórias.

 

Objetivo do projeto: Estimular a escuta, do  latim auscultare, significando, entre outros, ouvir com atenção, do outro como constituição das  múltiplas vozes de suas próprias falas.

 

Metodologia:  as escutas virão a partir de relatos das crianças de histórias contadas por seus familiares , e vivenciadas por elas em suas comunidades de origem. Tais narrativas podem ser registradas em áudio, vídeo, escrita ou desenhos. A partir a escuta, as crianças passam a recontar as histórias, reconstruindo e reconstituindo em sua forma de apropriação.

 

 

 

 

 

Pequena Biografia

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: EDUFMG, 2008.

BENJAMIN,Walter . Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação, 3ª ed., trad. Marcus Vinicius Mazzari, São Paulo: Summus Editorial, 1984.

____. Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. pref. Theodor W. Adorno, Lisboa: Relógio d`Àgua, 1991.

CAMARGO, Fernanda Monteiro Barreto. A arvore cor de Rosa . Rio de Janeiro: Gramma, 2017.

DAMÁSIO, Antônio R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996

FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo: Cortez & Moraes, 1981.

LOPES Jader Janer Moreira; VASCONCELLOS, Tânia de. Geografia da infância: reflexões sobre uma área de pesquisa. Juiz de Fora: Feme, 2005.

SARMENTO, Manuel Jacinto A infância: paradigmas, correntes e perspectivas. Braga: IEC, 2000.

SARMENTO, Manuel Jacinto; VASCONCELLOS, Vera. Infâncias (in)visíveis. Araraquara, São Paulo: Junqueira & Marin, 2007  

 

Resumo do Lattes:

Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) . Especialista em Gestão Escolar, Liderança do 3º Setor e Mediação em EaD pela UFES. Graduada em Educação Artística, Artes Plásticas ( UFES), Teologia e Pedagogia. Professora do Departamento de Linguagens , Cultura e Educação – Centro de Educação (UFES) . Coordenadora o Grupo de Pesquisa Imagem , Tecnologia e Infâncias ( GPITI) , vice coordenadora do Grupo de Pesquisa Arte na Educação Infantil (GEPAEI), pesquisadora do Observatório da Formação de professores de Artes na América Latina e membro do NUPEEES – UFSB . Desenvolve projetos nas áreas de Formação de Professores, Culturas e interdisciplinaridade.

 

 Endereço do Lattes:  http://lattes.cnpq.br/3626587521917442

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