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19 April 2020

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Narrativas Originárias como Afirmação dos Sujeitos em Espaços Educativos

  Martanézia R. Paganini

 

Apresentação

A origem deste projeto se confunde com a construção de meu projeto de vida. Nasce no momento em que tomo posse de mim. No momento mesmo, em que tomo consciência de o quanto somos estigmatizados pelo sistema que fere, lança fora e torna nula a existência dos menos favorecidos. O surgimento do projeto que ora exponho nasce ao recordar como me constituí como pessoa, ao deixar escriturada a minha maneira de ver o que fui e como me constituí como professora.  Assim, partindo de meu percurso, venho escutando as pessoas que passam pela minha vida como docente de uma escola pública, na Educação de Jovens e Adultos. Nesse acontecer docente, constituo-me a cada experiência vivida, a cada narrativa que se promove ao deixar falar aqueles que são tratados, muitas vezes, apenas como ouvintes. O projeto originário que venho trabalhando é deixar fluir a leitura dos que foram “assujeitados”, tornando-os interlocutores do discurso. O propósito é enxergá-los como interlocutores e refletir o quanto as demonstrações do sujeito em forma de narrativas orais, escritas, ou imagéticas se apresentam como estratégias formadoras de consciência, numa perspectiva emancipatória. No processo de demonstrar sobre si, a pessoa passa de assujeitado a sujeito porque  interage, reflete, debate e se move. E, ao se mover, desenvolve consciência de si, exatamente como aconteceu comigo.

 

A proposta é pensar a identidade na relação do sujeito com a linguagem, assumindo que ele é afetado pelas suas condições de existência, pelo seu pertencimento, pela linguagem e pelas narrativas que constrói. É nesse processo que os sujeitos se interagem e se constituem, simultaneamente, pela experiência da linguagem. Assim, o projeto de pensar a origem dialoga com o pensamento de autores que teorizam sobre questões relacionadas à escrita autobiográfica, em que expondo sobre si, o sujeito toma como objeto de reflexão a sua própria vida e, ao mesmo tempo, confere sentido ao presente, construindo uma imagem de si, uma representação identitária com projeções para o futuro. Nessa linha de pensamento, toma-se como referência estudos desenvolvidos por Josso, que apresenta experiência com história de vida em formação, Clementino de Souza e  Passegi, para quem as narrativas autobiográficas se constituem como aparato discursivo de formação existencial, por isso, capaz de possibilitar a construção do saber sobre si e sobre o mundo. Problematizando essa temática, buscam-se refletir sobre a abordagem autobiográfica na condução dos processos de aprendizagem, de formação e de inserção social, considerando que a abordagem (auto)biográfica tem sido adotada para ampliar os conhecimentos dos sujeitos em formação, e também para ampliar o conhecimento sobre esses sujeitos, a fim de saber: que histórias eles trazem, quais são seus modos de aprender, quais são suas filiações, e quais significados atribuem à sua própria formação. Tendo como pressuposto o que orienta JOSSO (2000), quando ressalta que o sujeito é o indivíduo que, ao refletir sobre as suas vivências e ressignificá-las, transforma-as em conhecimento e em experiência. O sujeito, portanto, nessa concepção, é o sujeito da experiência.

 

ALGUMAS REFERÊNCIAS

BALASSIANO, Ana Luíza Grilo; OLIVEIRA, Anne-Marie Milon; SOUZA, Elizeu Clementino de. Escrita de si, Resistência e empoderamento. Curitiba: 2014.

BOURDIEU, Pierre. Razões práticas sobre a teoria da ação. Tradução Mariza Corrêa. Campinas, São Paulo: Papirus, 1996.

 DOMINICÉ, Pierre. “A formação do adulto confrontada pelo imperativo biográfico”. São Paulo: 2006; Revista Educação e Pesquisa. Nº 2, V. 32. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ep/article/view/28014. Acessado em 30/08

 GOMES, Nilma Lino; SILVA, Petronilha B. Gonçalves. (orgs) Experiências Étnico-culturais para formação de Professores. 2ed. Belo Horizonte: autêntica, 2006.

 JOSSO, Marie-Christine. A transformação de si a partir  da narração de histórias de vida. Revista Porto Alegre/RS, ano XXX, n. 3 (63), p. 413-438, set./dez. 2007.

Disponível em Http://www. http://wp.ufpel.edu.br/gepiem/files/2008/09/a_tranfor2.pdf. Acesso em 29/08

LARROSA, Jorge. “Experiência e Alteridade em Educação”. Revista Reflexão e ação, Santa Cruz do Sul. 2011, nº 2, V.19. Disponível em  https://online.unisc.br/seer/index.php/reflex/article/view/2444. Acesso em 30/08/2015

 PAIVA, Jane. “Formação docente para educação de Jovens e adultos: O papel das redes no aprendizado ao longo da vida.”  Educação e contemporaneidade, Salvador: 2012. Volume 21, nº 37. Disponível em https://www.revistas.uneb.br/index.php/faeeba/article/view/459

SOARES, Leoncio; GIOVANETTI, Amélia Gomes de,  GOMES, Nilma Lino. (orgs) Diálogos na Educação de Jovens e Adultos. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

 

Pequena biografia:

Martanezia, mulher da espécie humana, de origem pobre, afrodescendente,  advinda de mãe: iletrada e de pai semi-letrado, negro, militante em favor das causas dos menos favorecidos. Mulher que traz em si a consciência de seu papel no mundo, por isso optou em ser professora. Alcançou  aos 37 anos, o sonho de cursar Letras, Língua Portuguesa, na Universidade Federal do Espírito Santo, um desejo que sempre precisou ser adiado pelas dificuldades de ordem familiar e pessoal. A língua e as questões relacionadas à linguagem sempre foram objeto de pesquisa, paixão que se desenvolveu ainda mais no percurso da formação. Assim, em 2002, já concluída a graduação, ingressou no curso de pós-graduação lato-senso em lingüística.  Atuou como professora contratada pela UFES. Cursou o Mestrado em estudos literários e sempre atuou como professora da escola pública, especialmente na Educação de Jovens e Adultos. Paralelamente atua na formação de professores pelo Instituto Federal do Espírito Santo, como tutora a distância.  

 

 

Resumo do lattes: 

https://wwws.cnpq.br/cvlattesweb/PKG_MENU.menu?f_cod=ACB582FECD3256D423C02B7A868DEA18#

 

Professora Licenciada em Letras – Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa, UFES. Mestra em Estudos Literários, pela Universidade Federal do Espírito Santo, (UFES). Especialista em Estudos linguísticos: da gramática ao discurso e em Filosofia e Psicanálise, pela Universidade Federal do Espírito Santo-UFES. Atua como tutora-orientadora do Curso de Licenciatura em Letras do Centro de Referência em Formação e em Educação a Distância, do Instituto Federal do Espírito Santo, (IFES). Experiência com formação de professores e estudos sobre Currículo. Membro do Núcleo de Pesquisa em Experiência do Sensível NUPEES (2016). Atualmente no exercício da docência com a Educação de Jovens e adultos e desenvolve trabalhos e pesquisa acerca de narrativas de si, experiência e formação.

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